- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
- BERNARDO MALAMUTimersões BERNARDO MALAMUT imersões
Justificativa
“Falamos em um aprofundamento com relação a terra. Uma relação que às vezes é estabelecida e cultivada ao longo de dezenas de milhares de anos. Uma relação em que as pessoas estão tão profundamente enraizadas no lugar, que as pessoas e o lugar se tornam quase sinônimos. As canções do povo vêm diretamente da terra e, quando cantadas, despertam a terra em um ciclo interminável. Uma relação com o lugar onde a geografia está viva com canções e histórias. E os elementos da paisagem são seres, e esses seres estão lá há muito, muito tempo. Assim, caminhar pela paisagem nesse tipo de relação com o lugar é caminhar por histórias profundas, multigeracionais e embutidas. Os deuses do lugar são fortes, e existem protocolos sobre como acessá-los e invocá-los.”
(Schrei, J. Let us sing of the syncretic Gods)
Foi pensando nisso que surgiu esse programa de imersão. Foi para nós, os exilados das grandes narrativas. Passei os últimos 4 anos concebendo e montando esse programa, e ele foi construído pensando numa jornada progressiva de iniciação. Iniciação ao que outrora foi conhecido simplesmente como “histórias”.
Mas o que essas histórias têm de tão especial a ponto de serem chamadas de “mitos” ou “Grandes Histórias”? Por que elas importam tanto?








Será que são simplesmente ficções da mente do homem primitivo, que, na falta de um apoio lógico para compreender o mundo, inventou sentido? Pode parecer assim, para nós, os exilados das grandes histórias. Mas essa é uma compreensão superficial. Anos e anos de pesquisa em Estudos Mitológicos e Ritualísticos, acompanhados pelo aprofundamento da compreensão antropológica e sociológica humana, além de todo arcabouço de saberes da psicologia profunda e arquetípica, nos afirmam com bastante certeza: não. Essas não eram só ‘fantasias’ de mentes primitivas. O mito era (e ainda é) um grande mapa de compreensão dos ciclos da vida, do mundo, das relações sociais, cosmológicos e um grande mapa para a psique individual. Essa é uma das grandes contribuições que a pesquisa moderna de Jung e Campbell recuperam para nós.
Mas e para nós? Cujo único grande mito que crescemos ouvindo foi no máximo a história do marceneiro, que por professar o amor, terminou morto numa cruz também de madeira e que ressuscitou para provar a imortalidade dessa escolha pelo amor universal. Mas essa história acabou perdendo seu poder mágico quando começou a ser institucionalizada. Então sentimos desconectados. Desconectados da natureza, que mais parece um objeto a ser consumido, destruído ou preservado. Desconectados do cosmos, desencantado e silencioso. Desconectados de nós mesmos. É a própria Terra Devastada de Parsival.
Sem o apoio das grandes narrativas, sem o apoio do sonhar, o que resta para nós? Frequentemente sentimos que não conseguimos mais acessar o que eram essas histórias. Perdemos essas histórias, esses Deuses antigos, as religiões daqueles homens e mulheres sábios cuja religião era aquela das árvores.
E agora, nós, nem sonhar conseguimos mais. E quando sonhamos, é só com nós mesmos, como nos ensina Davi Kopenawa, em seu livro A Queda do Céu.
Mas essas foram histórias que sempre foram ouvidas com todo o corpo. E foram ouvidas por muito tempo. Muito mais tempo que, em nossa mente ultra contemporânea, podemos conceber. Os mistérios de Eleusis na Grécia, por exemplo, foram celebrados e repetidos por mais de 1800 anos de forma ininterrupta. Já a adoração do Sol, foi celebrada diariamente por 20 séculos no Egito. Essas histórias foram ouvidas por muitos corpos. Por muito tempo. Elas estão profundamente enraizadas em nós. No nosso corpo. Ele só precisa ser acordado. Caminhamos sobre essas histórias, esquecidos dos nossos antepassados, mas eles estão vivos em nós. As histórias estão vivas.
“Desde que os homens começaram, houve pessoas que viajavam por toda esta doce Terra verde, apaixonadas pelo mistério, sem buscar respostas, pois a verdade é um tesouro da escuridão e dos lugares mais selvagens.
Mas ela, ela, sussurra todas essas coisas para seus filhos — nas canções de sangue e da terra — e fragmentos são captados no dizer e no tocar, e na pulsação da corda da canção da harpa no coração acelerado.
E era assim que as histórias sempre eram contadas — em segredo.
E assim surgiram os contos e seus contadores, antes que houvesse casas, antes que houvesse fazendas, antes que houvesse escolas, antes que houvesse igrejas, havia esses sacerdotes da canção tão velhos e mais velhos que nós, servindo aos antigos deuses da língua e da ponta dos dedos, musas da linguagem dos pássaros, indo direto ao coração e preenchendo cada vazio com aquela ânsia por maravilhas – Para o sonho que fecha nossos olhos a noite, nos leva aos contos e apaga nosso fogo por fazer, fazer, fazer… com essa compreensão mais profunda”
Fiona Davidson – The Treasure of Darkness