“A psicanálise não passa da transposição de uma vocação literária para o campo da psicologia e da patologia. (…) Ninguém havia notado esse segredo aberto e eu não o teria revelado a ninguém se você não tivesse tido a excelente ideia de me oferecer uma estátua de Narciso.”
Sigmund Freud, 1934.
Começo de modo apropriado, como se é devido: honrando os ancestrais. E nesse caso, o ancestral em questão é Freud. O chamado “pai” da psicanálise.
A citação que abre o texto vem de uma entrevista de Freud dada a Giovanni Papini (1881-1956) escritor italiano. Papini supostamente havia enviado a Freud uma estátua de Narciso. “Ao descobridor do Narcisismo” Papini escreveu.
Freud então, já com 78 anos de vida encontrou-se com Papini e lhe concedeu uma entrevista da qual vem esse trecho maior abaixo:
“Todos pensam (…) que sustento o caráter científico de meu trabalho e que meu principal objetivo reside em curar doenças mentais. Trata-se de um erro terrível que prevalece há anos e que não consigo corrigir. Sou cientista por necessidade, não por vocação. Por natureza, sou realmente artista. Que a minha cultura seja essencialmente literária é o que prova abundantemente as citações contínuas que faço de Goethe, de Grillparzer, de Heine e de outros poetas. Minha alma, por sua constituição, é levada ao ensaio filosófico, ao paradoxo, ao dramático e não possui nada da pedante rigidez técnica característica do verdadeiro homem de ciência. Eis uma prova irrefutável: em todos os países onde a Psicanálise penetrou, ela foi melhor compreendida e aplicada por escritores e artistas que por médicos. Meus livros de fato se parecem mais com trabalhos da imaginação do que com tratados de patologia… Eu consegui vencer meu destino de forma indireta e realizei meu sonho: permanecer um homem das letras, embora, na aparência, ainda seja um médico. Em todos os grandes homens de ciência há uma pitada de fantasia, mas ninguém se propõe, como eu, a traduzir as inspirações oferecidas pelas correntes da literatura moderna em teorias científicas”.
Essa entrevista, em minha pesquisa e experiência, é um texto pouquíssimo comentado por colegas analistas. Talvez porque existam várias perguntas sobre a autenticidade ou não desse encontro e dessa entrevista. Nesse caso, ser uma ficção ou não, pouco importa do próprio ponto de vista da psicanálise. Além disso, lemos o próprio Freud em sua obra dizer que, ele mesmo, poderia ser lido como um roman à clef – um romance disfarçado. E finalmente, Freud em vida recebeu um único prêmio por sua obra – o prêmio Goethe de literatura.
Freud cria um gênero literário – um novo tipo de romance: o caso clínico. Não se trata mais só do “que se fala”, mas também sobre “como se fala”. E o que é dito e o que não é dito no ‘modo como se fala’, não se tornam mais recursos literários narrativos, mas agora ganham importância clínica – ganham um novo nome: inconsciente.
A psicanálise vai nos ensinando a prestar menos atenção a história sendo contada, e mais atenção como a trama da história é contada. A trama é o modo de contar da história (O estilo é o homem, diz Lacan em seus Escritos).
A trama revela as intenções humanas. Demonstra relações e posições. A história relatada diz “o que aconteceu”, mas a trama nos diz “como” aconteceu.
“O rei morreu e então a rainha morreu” – história.
“O rei morreu, então a rainha, de desgosto, morreu” é a trama. O sentido, o oculto, o ‘interno’ ganham profunda relevância.
James Hillman em sua maravilhosa obra chamada “Ficções que curam” nos diz: “Um diagnóstico é parcialmente elaborado sobre a base do estilo da pessoa ao contar sua história”
Hillman diz também que a psicoterapia cria um gênero narrativo novo – ficção terapêutica, em que uma história vai ser narrada numa trama revisada e reescrita a três (o inconsciente que narra a trama, o analista que pontua, corta, escande… e o paciente que reescreve).
E assim se cria esse novo setting: o consultório do analista. E esse novo gênero clínico: historicizar sobre si. Falamos de si buscando fazer alma.
“Pois a maneira pela qual contamos a nós mesmos o que está acontecendo é o gênero por meio do qual os eventos se tornam experiências. (…) Um evento torna-se uma experiência, move-se do externo para o interno, transforma-se em alma, quando passa por um processo psicológico, quando é trabalhado pela alma” diz Hillman
Para Freud só havia uma única trama, um enredo, um mito (onde quer que a palavra “trama” apareça, a palavra original é mythos). Para Freud só havia um mito – o mito de Édipo. Esse era o modo como a alma trabalhava os fenômenos da pulsão – fazendo alma nesse teatro de 3 atos chamado Édipo Rei.
James Hillman nos lembra: “trata-se de um conto sobre a interação entre humano e divino”.
Segundo Hillman, Freud e Jung localizam uma base poético-mitológica para a psique. E uma base poética para terapia.
Hillman nomeia a análise como esse “local de fazer alma”. E para ele: fazer alma é fazer mito.
Hillman cria então um programa novo de estudos no campo junguiano: “A libertação dos fenômenos psíquicos da maldição do espirito analítico”.
Ele buscava meios de libertar a psique da arrogância do domínio da razão.
(Há uma carta de Keats, o poeta, em que ele se dirigindo ao seu irmão diz: “chame o mundo, lhe peço, de ‘o vale de fazer alma’, então você descobrirá para que serve o mundo”.)
O mito então é uma outra forma de contar histórias. Outro gênero de contar histórias que não o gênero ‘terapêutico’ de contar histórias. Mito é um outro estilo narrativo. E antes de abordarmos esse gênero, é curioso perceber como mitos são histórias que se contam com o corpo. São histórias para serem ouvidas, sentidas, nutridas. São histórias de iniciação e de integração. São histórias profundamente integrativas. E são essas as histórias que hoje me interessam contar. São essas histórias muito antigas, tão antigas que talvez, como dizem alguns mitos – os humanos surgiram para que essas histórias aupudessem ser contadas.
“O mundo existe por que Deus gosta de contar histórias” diz um provérbio judaico.
Antes de encerrar, sei que começamos o texto honrando um pai, mas os mitos bem me ensinaram que não há herança que não traga consigo uma maldição. E Lacan é preciso em captar isso em seu ‘Seminário 6: O desejo e sua interpretação’: “O pecado do pai é a herança do pai”.
Diferente de Freud que realmente fazia parte da ‘Era do Pai’, não vamos aqui fazer nenhum esforço para salvar o Pai.
Contar sobre si, virou vício de si. Não há grandes histórias para dizer do que eu estou vivendo, então eu passo a falar de mim. Sem parar.
Ao invés de salvarmos o pai, um projeto mais interessante talvez fosse rastrear essas heranças-pecado – sendo o individualismo e a restrição do mental neurótico a um único mito: o edipiano, – essas peças de roupa, vinda de outro século, charmosas e elegantes, mas assim como esses ternos do século passado, são restritos demais, quadrados e masculinos demais, e honestamente mais puídos que os analistas gostariam. Ternos verde limão, tão gastos, gastos até o último significante, ternos tão usados que se reduziram a um A cortado. Logo essa vogal tão linda, tão aberta, logo ela… Restando o silencio. Lacan fazendo nós em um pedaço de barbante em frente a uma audiência silenciosa e atenta.
Marinheiros especialistas em nós são fundamentais, mas também são fundamentais os que sonham com outros continentes, aqueles que inspiram os que são especialistas em amarrar… a navegar.